Cinto paraquedista NR-35: 10 erros comuns no uso e como corrigir
Os erros mais comuns com o cinto tipo paraquedista no canteiro, o que a NR-35 exige e o que é boa prática, com dicas para aplicar já amanhã.
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Você sobe na laje às 7h e vê o armador com o cinto tipo paraquedista vestido. Só que as fitas das pernas estão soltas, a argola dorsal caiu para o meio das costas e o talabarte está preso numa ponta de vergalhão. Ele está de cinto, mas, se cair, o cinto ajuda pouco. Os erros no uso do cinto paraquedista quase nunca vêm da falta do EPI. Vêm do jeito de vestir, de conectar e de cuidar dele no dia a dia, e é disso que trata este guia de segurança do trabalho.
Em cada erro, separamos o que a norma exige (com NR e item) do que é boa prática de canteiro. A dica ajuda, mas não é obrigação legal. A obrigação está no texto oficial da NR-35 e da NR-6. O que vale para o seu modelo de cinto está no manual do fabricante e no CA.
Erros na hora de vestir
1. Fitas das pernas e do peito frouxas
É o erro mais comum e o mais fácil de ver de longe. O trabalhador aperta o cinto no primeiro dia e depois afrouxa as pernas porque incomoda para agachar. Numa queda, a folga deixa o corpo escorregar dentro do cinto e joga a carga no lugar errado.
O que fazer: ajuste na frente do encarregado antes de subir, com o trabalhador já vestindo a roupa do dia. O teste de folga certo para o seu modelo está no manual. Use o dele, não uma regra de ouvido. Se a pessoa reclama de desconforto, o problema pode ser o tamanho, e aí a conversa é outra (veja o erro 3).
2. Argola dorsal fora do lugar
A argola das costas deve ficar entre as escápulas, na altura que o fabricante indica. Quando as fitas dos ombros estão mal reguladas, ela desce para a lombar. Peça a um colega que confira, porque quem veste não enxerga as próprias costas.
3. Um tamanho para todo mundo
No almoxarifado, vai o cinto que sobrou. O servente magro sai com o cinto do carpinteiro grande e fica com as fivelas no fim do curso. A NR-6, item 6.5.2, f, manda a organização considerar, na seleção do EPI, a adequação do equipamento ao empregado e o conforto oferecido. Na prática: tenha mais de um tamanho em estoque e anote o tamanho de cada pessoa no cadastro da equipe ou na sua planilha.
Erros na hora de conectar
4. Engatar o talabarte no ponto errado do cinto
Cinto com várias argolas confunde quem não foi bem orientado. As argolas laterais da cintura servem para posicionamento. A argola abdominal serve para acesso por corda. As alças dos ombros, quando existem, servem para resgate e espaço confinado, segundo o fabricante. Nenhuma delas é ponto de retenção de queda, a menos que o manual diga o contrário.
O que a norma diz:
O cinturão de segurança tipo paraquedista, quando utilizado em retenção de queda, deve estar conectado pelo seu elemento de engate para retenção de queda indicado pelo fabricante. (NR-35, item 35.6.9.1)
O glossário da NR-35 diz que esse elemento fica na região dorsal ou peitoral. Dica de canteiro: no DDS, mostre o cinto que a equipe usa, aponte cada argola e peça a um trabalhador que diga para que serve cada uma. As etiquetas do cinto trazem os símbolos de engate, então ensine a equipe a ler a etiqueta.
5. Talabarte sem absorvedor, ou montado do jeito errado
Ainda se vê talabarte de posicionamento usado para retenção de queda, talabarte emendado com corda e gancho preso no próprio talabarte depois de dar a volta na viga. A NR-35, item 35.6.9.1.1, diz que, se o elemento de ligação para retenção de quedas for um talabarte, ele deve ser um talabarte integrado com absorvedor de energia. O item 35.6.7 pede que o sistema seja escolhido para que a força de impacto transmitida ao trabalhador seja de no máximo 6 kN. E o item 35.6.11, f, pede que a análise de risco considere a compatibilidade entre os elementos do sistema.
Para dar a volta na estrutura, use só os modelos e as configurações que o manual do talabarte aceita. Se o manual não fala daquilo, não faça.
6. Ancorar baixo e esquecer a zona livre de queda
Na borda da laje, o trabalhador prende o talabarte no pé de um pilar, abaixo da cintura, ou no guarda-corpo provisório. Quanto mais baixo o ponto, maior a queda livre antes de o absorvedor agir. E maior o espaço necessário embaixo para ele não bater no andar de baixo.
A NR-35, item 35.6.11, manda a análise de risco considerar a distância de queda livre, o fator de queda e a zona livre de queda. O item 35.6.11.1 pede que o talabarte e o trava-quedas fiquem posicionados de modo a restringir a queda livre e evitar que o trabalhador bata em estrutura inferior. Boa prática: defina na análise de risco e no procedimento onde ficam os pontos de ancoragem de cada frente e marque esses pontos no local. Assim ninguém escolhe ponto na hora.
7. Soltar para passar de um lado para o outro
Para passar uma viga ou um vão, o trabalhador solta o único gancho, anda dois passos e prende de novo. São esses dois passos que derrubam gente. A NR-35, item 35.6.11, a, manda a análise de risco considerar que o trabalhador fique conectado ao sistema durante todo o período de exposição ao risco de queda. Onde há deslocamento com troca de ponto, a solução costuma ser talabarte duplo ou linha de vida, conforme a análise de risco da frente.
Erros de inspeção, conservação e troca
8. Pular a inspeção antes de subir
A NR-35, item 35.6.6, pede inspeções inicial, rotineira e periódica do sistema, seguindo as recomendações do fabricante e recusando o que tiver defeito ou deformação. A rotineira é feita antes do início dos trabalhos (item 35.6.6.2), e o glossário diz que ela é visual e tátil, feita pelo trabalhador. Pelo glossário, a periódica é feita em intervalo não superior a 12 meses, respeitando as instruções do fabricante. O item 35.6.6.4 manda registrar as inspeções iniciais, as periódicas e as rotineiras que recusaram algum elemento.
Uma rotina que cabe em um minuto, no pé da escada:
- passar a fita entre os dedos, de ponta a ponta, procurando corte, fio puxado, endurecimento ou marca de queimadura;
- olhar as costuras, principalmente perto das argolas;
- conferir fivelas e argolas: trinca, amassado, ferrugem, mola que não volta;
- ler a etiqueta: se estiver ilegível, separe o cinto e fale com o técnico;
- abrir e fechar os conectores do talabarte e ver se a trava volta sozinha.
9. Continuar usando o cinto que segurou uma queda
"Não aconteceu nada, o cinto está inteiro." Não importa. Pela NR-35, item 35.6.6.5, a peça do sistema que segurou uma queda sai de uso e vai para o descarte. O mesmo vale para a peça com defeito, desgaste ou deformação. A exceção é quando a norma técnica e o fabricante preveem a restauração. Vale também para o talabarte com o absorvedor aberto. Boa prática: corte as fitas do cinto descartado na frente da equipe. Cinto que vai para o fundo do almoxarifado sem ser inutilizado acaba voltando para a obra.
10. Reparo caseiro e guarda de qualquer jeito
Fita costurada na obra, fivela trocada por arame, cinto jogado na caçamba ao lado do solvente, pendurado no sol do tapume ou embolado com a lixa e o disco de corte. A NR-6, item 6.6.1, c, põe no trabalhador a responsabilidade pela limpeza, guarda e conservação do EPI. A alínea d põe nele o dever de avisar quando o EPI estiver danificado. Já a NR-6, item 6.5.1, f e g, põe na organização a higienização e a manutenção conforme o fabricante e a troca imediata do EPI danificado ou extraviado.
No canteiro: reserve um lugar fixo para pendurar os cintos, seco, na sombra e longe de produto químico. Para o soldador em altura, confira com o técnico, pelo manual e pelo CA, se o cinto e o talabarte servem para trabalho a quente.
Norma ou boa prática: o resumo
| Ponto | O que a norma exige | Boa prática de canteiro |
|---|---|---|
| Ponto de engate | Engate de retenção indicado pelo fabricante (NR-35, 35.6.9.1) | Ensinar no DDS a leitura da etiqueta |
| Talabarte | Integrado com absorvedor de energia, se usado em retenção (NR-35, 35.6.9.1.1) | Guardar separados os talabartes de posicionamento |
| Conexão | Ficar conectado durante toda a exposição (NR-35, 35.6.11, a) | Talabarte duplo onde há troca de ponto |
| Inspeção | Inicial, rotineira e periódica, com registro (NR-35, 35.6.6 e 35.6.6.4) | Roteiro de um minuto no pé da escada |
| Após queda | Inutilizar e descartar (NR-35, 35.6.6.5) | Cortar as fitas na frente da equipe |
| Tamanho | Adequação ao empregado (NR-6, 6.5.2, f) | Mais de um tamanho no almoxarifado |
Como conversar com a equipe
Bronca no meio da laje resolve o dia, não o hábito. Algumas coisas funcionam melhor:
- Mostre, não leia. Leve o cinto para o DDS e peça a alguém que o vista errado de propósito. A equipe aponta o erro.
- Explique o porquê. "Perna frouxa faz o cinto subir na queda" convence mais que "aperta isso aí".
- Ouça a reclamação. Quem afrouxa o cinto quase sempre tem um motivo: tamanho errado, fivela que machuca, calor. A NR-6, item 6.5.2.2, prevê que os empregados que usam o EPI sejam ouvidos na seleção.
- Combine o que é inegociável. Ponto de engate, conexão o tempo todo e inspeção antes de subir não têm exceção.
Orientar também é dever da empresa. A NR-6, item 6.7.2, pede que, na entrega do EPI, a organização informe, conforme o manual do fabricante, como usar e ajustar, as limitações, a manutenção, a troca e os cuidados de guarda. E o treinamento inicial da NR-35, item 35.4.2.1, e, inclui seleção, inspeção, conservação e limitação de uso do EPI para trabalho em altura. Confira prazos e carga horária no texto oficial.
O que fazer na segunda-feira
- Junte os cintos da obra e faça uma inspeção com o técnico. Separe e inutilize os reprovados e registre o resultado.
- Confira os tamanhos de quem trabalha em altura e peça reposição do que faltar.
- Revise na análise de risco de cada frente onde ficam os pontos de ancoragem e marque esses pontos no local.
- Faça um DDS sobre os pontos de engate, com o cinto na mão.
- Defina um lugar fixo para guardar os cintos no canteiro.
Nenhuma dessas dicas substitui a análise de risco, o procedimento da empresa e o manual do fabricante. Mas elas evitam os erros que mais se repetem na obra. Se você quiser registrar a entrega de cada cinto com assinatura no celular, dá para começar grátis no CanteiroDocs.